Aula da Saudade - parte 4


Rafael era seu amigo, no entanto Rodrigo não conseguia se furtar de uma sensação de raiva que lhe passava pela cabeça, cada vez que via ele e Mariana juntos. No entanto, Rodrigo sabia que não tinha este direito, sua amiga era apenas uma amiga, não possuia nenhum laço de fidelidade que justificasse o seu ciúme. Rafael tinha todo o direito de dar em cima dela se quisesse e isso deixava Rodrigo confuso pois sentia algo injustificado, e ainda teria de esconder isso como pudesse, pois sabia que ninguém o entenderia. Seria taxado de ciumento idiota, possessivo. Mesmo agora, estava imerso em seus conflitos mentais, sem saber o que achar ou sentir, enquanto olhava para a forma como seus dois amigos conversavam, ao longe.
_Ciúmes? - pergunta Anna.
_Do que você tá falando? - pergunta um Rodrigo surpreso, sem imaginar que alguém notara seu pequeno exercício de ciúme.
_Você aí, olhando para Rafael e Mariana com essa cara feia. Não foi tão difícil imaginar que você está sentindo ciúmes Dinho.
_Deixa de besteira Anna, a Mari é só minha amiga, ponto. Não posso mesmo ter gastrite em paz por aqui?
_É comum sentir ciúmes de amigos. Não fique se martirizando aí, deixa isso pra lá e vamos lanchar lá embaixo, se quiser alguém para conversar é claro.
_Tá bom, então. Preciso dar uma passada no banheiro também... - diz Rodrigo.
No caminho ele vai até sua mochila e tira um Leite de Magnésio de um dos bolsos.

Trinta anos depois

Rafael abre um sorriso espantado: recebera um convite em seu email, de uma festa para reunir os alunos de sua antiga classe dos tempos de faculdade.
_Animador - pensara - Mari vai adorar saber disso!
Rafael notara que sua esposa estava muito deprimida nos últimos três dias, embora ela se esforçasse para disfarçar ele já havia flagrado-a em pelo menos quatro ocasiões, olhando para o vazio, com um semblante assustado. Ele estava preocupado com sua mulher, mas acreditava que o convite era um sinal, uma boa nova que certamente animaria Mariana.

Três decadas atrás

Rodrigo estava sentado nas pequenas mesas de plástico, na Cantina, o bar em frente a faculdade. À sua frente estava Anna, que olhava para ele esperando que falasse alguma coisa. Após um longo silêncio, ela finalmente pergunta:
_Então é isso? Tem certeza que não sente nada por ela, só ciúme de amigo mesmo?
_Acho que sim Anna, só sei que sinto muita raiva dos dois quando os vejo juntos. Gostaria que ela percebesse que ele está dando em cima dela, mas não posso nem falar nada. Ela ia me taxar de ciumento...
_Não deixa de ser verdade! - Anna sorri um pouco, tentando mudar o tom da conversa.
_Mas é como você disse: É normal sentir ciúme de amigos! Eu só... só acho que... estou muito confuso Anna.
_Você pensa demais Rodrigo. Eu te conheço: para você, tudo tem de ser motivo para ficar emburrado, horas a pensar, em conflitos consigo mesmo. Não é a toa que se sente confuso! Uma prima minha costumava dizer que homens que pensam demais sempre são ambíguos e confusos, que o truque é não se levar tão a sério e relaxar um pouco, ficar na paz.
_Ambíguo. Se pudesse me definir, usaria esta palavra! - Rodrigo sorri, um tanto surpreso em descobrir que havia alguém que o entendesse tão bem.
_Acho que está na hora de irmos Dinho. Tão fechando tudo e o Seu Bigode tá com a maior cara fechada pra cima da gente, só esperando sairmos para terminar o expediente!
_Eu te deixo em casa Anna, é o mínimo que posso fazer!
_Seu pai vai adorar saber que você pega o Opala dele para ficar dando carona para quem mora lá no interior!
Rodrigo se sente feliz, fazia tempos desde que tinha uma conversa tão boa - Você não mora mais no Centro?
_Moro seu bobo, no interior do interior do Centro.

Vinte kilômetros depois

Rodrigo estava fascinado, Anna havia salvo sua noite. Após horas de aulas irritantes, devido ao "problema" com Rafael e Mariana, ele estava finalmente podendo relaxar, com uma ótima conversa. O tempo passara tão rápido no bar e - agora - no carro, que Rodrigo sequer notara que já estava tarde, muito tarde. Estava embasbacado pois conhecia Anna há anos, mas nunca imaginou que ela o entendia tão bem, e era uma pessoa tão divertida.
Finalmente parara o carro, em frente à casa dela. Apesar de dizer que mora no Centro, Anna tecnicamente morava num bairro próximo dele, o D'ávila, um bairro pobre. Sua casa era modesta, a parte da frente só apresentava uma porta e uma janela gradeadas. Anna era filha de pais pobres, que moravam no interior do estado, mas que teve a oportunidade de cursar o ensino superior, e ela estava determinada a se formar e ter sucesso profissional, para ajudar a família.
_Você não odeia silêncios constrangedores? - pergunta Anna.
_Odeio, e adoro. Ambíguo, lembra?
Só então Anna percebe que seus olhos estavam fitando os de Rodrigo desde que o silêncio constrangedor começara, quando chegaram à sua rua. Corada, ela desvia o olhar:
_Está meio tarde agora, e já conversamos um bocado não é Dinho? Melhor eu ir entrando, pra você voltar logo para casa, esta hora já é muito perigoso por aí.
_Tarde? - Rodrigo olha no relógio de pulso - Meu Deus! Já é muito tarde! Você acha que dá para eu voltar agora, não é muito perigoso?
_Não sei... Se você quiser, pode ficar em casa até de manhã.
_Jura? Posso mesmo?
_Se você não tiver problemas em dormir no sofá...

Posted by Odival Quaresma Neto 20:58 2 comentários  



Aula da Saudade - parte 3


A música era alta, o cheiro de erva queimada era intenso. Rafael gostava disso, enquanto estava envolto em cortinas de gelo seco, na escuridão, quebrada apenas pelos flashes de luzes de discoteca, sentia que podia ficar à vontade. Apesar de todos ao seu redor, os elementos que o rodeavam o faziam sentir aconchegado, em casa.
Por isso ele não sentia vergonha em apalpar a bunda da garota que conheceu minutos atrás. Também não sentia vergonha em beijá-la, com suas línguas se entrelaçando ainda do lado de fora de suas bocas. Trôpegos, caminham até o banheiro feminino, agarrados. Abrem a porta de um dos cubículos mas encontram um casal transando dentro deste. Rafael e sua companheira riem, fechando a porta e se trancando no cubículo ao lado.
Horas depois, o céu estava ameaçando clarear, um sinal claro de que o dia estava prestes a começar. Enquanto sentia que sua cama era o metro cúbico mais confortável do Sistema Solar, Rafael ensaiava alguns pensamentos soltos até que pegasse no sono. Cansado da festa, da qual acabara de voltar, ele deixa sua mente flutuar pelas lembranças ainda frescas da garota com quem transara. Mas, traiçoeiramente, suas memórias haviam mentalizado o rosto de uma outra garota, e Rafael se flagra imaginando o rosto de uma amiga de faculdade, imaginando o rosto de Mariana.
_Caralho... - ele resmunga, antes de pegar no sono.

Onze horas mais tarde

Beatriz estava sentada em sua carteira. Ela estava anotando a aula, como de costume, cada palavra proferida pelo professor era anotada, sem piedade. E então, enquanto o professor apalpava o gélido lóbulo de sua orelha esquerda, Beatriz passeia com o olhar em volta da sala, e nota que Rafael estava novamente encarando Mariana.
_Que diabos - pensa ela - por que ele não para de olhar para ela?
Eis que Mariana olha na direção de Rafael, este sorri, um sorriso completamente a priori para olhares mais descuidados.
O olhar de Beatriz certamente não era deste tipo, e suas sinapses cerebrais arriscavam uma suposição.
_Ei! - Diz Marcos - Entregou o fichamento?
-Fichamento? Aquele do -
_Então assina logo ou passa pra outro aí - Marcos fala, após interromper grosseiramente Beatriz.

Trinta anos e cinco dias depois

Em algum lugar do País, uma operadora estabelece uma ligação telefônica entre dois aparelhos.
_Ei Marcos, deixa de besteira. E então, enviou os convites?
_Convites? Ah, sim! Aqueles da au -
_Ótimo, então toma vergonha na cara e, já que esqueceste de enviar um para mim, me diz onde e quando vai ser.
Marcos se enrola. Não percebera que havia esquecido de convidar justamente a pessoa com a qual concebera a idéia da aula da saudade. Tampouco esperava que ela se importasse a ponto de ligar para ele, para saber dos detalhes da festa.
_Sim, esse sábado, lá na praia do Arenol. Aluguei uma casa lá pra fazermos a festa tranquilo.
_Daqui há dois dias? - pergunta Beatriz.
_Dois dias! - responde Marcos.
_Marcos, lembra do Rodrigo? Ele vai?
_Bom Bia, engraçado você perguntar por ele. Como é que eu explico isso...
Beatriz ouvia atentamente, apertando o celular contra a orelha. Parecia difícil de acreditar nas palavras que Marcos proferia. Sua mãos apertavam a coberta de cama, pensava em Rodrigo e Mariana, pensara até em Rafael.
_Que foda - ela confidencia à Marcos.

Três decadas e um dia atrás

Rodrigo notara que Rafael estava mais próximo de Mariana, pareceu-lhe uma mudança súbita: embora eles fossem bons amigos há pelo menos três anos, nunca demonstraram nada mais que isso. Apenas pura e simples amizade, uma bonita amizade, mas nada especial.
No entanto, Rodrigo podia notar claramente que Rafael usava de pequenos truques masculinos para dar em cima de uma garota indiretamente, pequenos gestos e olhares que todo homem que se preze reconhece como manobras visando construir uma intimidade pouco à pouco, em direção aos lábios da mulher almejada.
Rodrigo notava isso com bastante facilidade: ele mesmo já havia adotado estas táticas várias vezes, quando queria ficar com uma amiga, fazendo parecer que a amizade evoluira naturalmente até um relacionamento. Ele não sentia nada especial por Mariana, isso lá é verdade, apenas a considerava uma boa amiga, no entanto uma pontade de ciúme ardia em seu estômago.
_Oi Dinho! - Diz Mariana, que fora falar com seu amigo.
_Oi Mariana.
_Sabe que eu estou até animada para aquele churrasco agora? Sinceramente, quero limpar minha cabeça, me divertir que já não aguento mais estudar!
_Legal.
_O que você tem menino, tá tão estranho hoje! E essa cara feia aí, que bicho te mordeu?
_Nada Mariana - Rodrigo nem percebera que estava com a cara fechada, os olhos semiserrados em direção à sua amiga - só um pouco de gastrite.

Posted by Odival Quaresma Neto 23:01 2 comentários  



Aula da Saudade - parte 2


Beatriz abre os olhos lentamente. À sua frente vê apenas uma janela com uma forte claridade solar iluminando o local. Ela tenta lembrar onde está, enquanto olha ao redor. Então ela vê Marcos ao seu lado na cama e lembra de tudo.
"Quanta irresponsabilidade" - pensa Beatriz - "No meio da tarde e você dando para alguém que mal conhece."
Marcos estava deitado ao seu lado, dormindo profundamente. No fundo de sua mente sonhava estar na casa em que morou durante sua infância, no interior de São Paulo, deitado no sofá com sua mamadeira e seu ônibus Greyhound de brinquedo. Enquanto isso, Beatriz notava o sorriso esboçado por seu antigo colega de classe e sorriu também, confiante que havia tido um ótimo desempenho na cama.
Ela se levanta lentamente, vai até o banheiro e se veste.
"Nunca se tem uma duchinha quando se precisa."

Trinta anos atrás

Anna tentava se concentrar nas palavras do professor, mas era muito difícil com Rafael e Mariana conversando atrás dela.
_Então no fim das contas você não vai porque está com receio de ser excluída? Deixa de ser lerda Mari! - disse Rafael.
_Não é bem assim, só não me sinto muito à vontade lá, só isso...
_Olha Vasconcelos, se você se sentir desconfortável ou sozinha, sei lá, eu prometo que vou estar do teu lado, tá? Aí você finge que não é excluída!
_Besta!
_Amanhã, eu e o Renan vamos sair para comprar a carne e a cerveja. TODO mundo vai, e isso inclui você. Goste disso ou não!
Irritada, Anna vira para trás e pede silêncio.

Três decadas e um dia depois

Marcos aproveita o domingo para procurar por velhos amigos na internet. Beatriz lhe enviara o email de algumas pessoas, mas ele precisava de toda a turma, ou pelo menos boa parte, para que pudesse convidá-los para uma aula da saudade. Ele não tinha um bom motivo para fazer tal celebração, mas ele tinha tempo livre e gostaria da oportunidade de levar outra amiga da antiga turma para a cama. Em sua obcessão demasiada por festas, bebidas e mulheres, ele deixara de notar que Anna tentava chamar sua atenção, e ele se torturava por ter perdido a oportunidade de ser alguém especial para ela.
Do alto de sua futilidade, Marcos não se importava em ser, de fato, alguém especial para Anna. Mas se corroía por dentro ao imaginar as possibilidades sexuais que isso poderia proporcioná-lo. E agora, trinta anos depois, ele tem uma oportunidade de remediar este erro e ele pretende aproveitá-la.

Um dia depois

Por pouco Mariana não perdeu o elevador. Apesar de gostar do trabalho no Ministério do Planejamento, ela estava se sentindo particularmente cansada naquele dia, e por isso não queria ficar um minuto sequer no edifício, após o expediente.
A porta do elevador se abre, e ela caminha em direção ao bloco C1, onde seu carro estava estacionado. Aproveitava o breve percurso para organizar, mentalmente, as coisas que tinha de fazer assim que chegasse em casa.
Vários minutos depois, ela para o carro em frente ao portão do seu prédio, esperando o porteiro abri-lo.
_Obrigada! - Ela diz para o porteiro, fechando o vidro elétrico do carro para, em seguida, manobra-lo até a garagem - "De um prédio para o outro, de subsolo em subsolo, meu dia sempre termina onde começou." - Ela pensa, antes de concluir a baliza em sua vaga.
Depois de tomar um banho, Mariana liga o seu notebook, e vai trocar de roupa enquanto espera o computador ligar completamente. Já vestida ela se senta em sua escrivaninha e insere seu pendrive no aparelho, copia documentos do trabalho para o disco rígido e fecha todas as janelas. Ela se preparava para desligar o notebook e ir jantar, mas resolveu checar seu email antes.
_Quanto spam inútil! Hum, quem é Marcos?

Posted by Odival Quaresma Neto 19:57 7 comentários  



Aula da Saudade - parte 1


"Eu só queria deixar de lembrar, só isso." - Ela pensa, enquanto olha para o teto, sem focar em nada em particular - "Se eu deixasse isso de lado, talvez pudesse ir."
Olhando para o teto, apática, Mariana nota que se movesse um pouco os olhos enquanto olhava para o ventilador de teto ligado, ela poderia - por um segundo - ver claramente as palhetas ao invés do borrão de cor amadeirada.
A porta do quarto se abre:
_Oi amor, que você tá fazendo deitada aí?
_Nada Rafa, nada...
_Amor, você tá chorando?
_Eu te amo Rafinha, te amo, te amo muito...
Mariana abraça seu marido, enquanto um sulco de lágrimas quentes escorre de seus olhos. Na escrivaninha do lado direito da cama, seu notebook estava com o monitor fechado. Se estivesse aberto, Rafael entenderia o que fez sua esposa chorar.

Dois dias atrás.

Marcos era um homem divertido para sua idade, do tipo que as pessoas costumam dizer que "ainda não superou a faculdade". Ele adorava festas, sair com garotas mais novas e todas as mesmas coisas que fazia trinta anos atrás, quando cursava Direito em uma Federal. Nesta tarde ele passeava na praia, olhando as garotas de biquini, enquanto pensava sobre o capô do porta-malas dos antigos fuscas.
Beatriz, por outro lado, estava conquistando agora o que julgava não possuir três decádas atrás: o olhar embasbacado dos homens ao seu redor. Trinta anos atrás, na faculdade, ela era a típica gorda da turma, que só saía com o pessoal quando tinha a sorte de estar no meio das meninas bonitas quando os garotos as convidavam para sair nas noites de sexta-feira. Hoje Beatriz se sente uma mulher gostosa e realizada profissionalmente, que não deixa de malhar em sua academia 24 horas pela madrugada, e de caminhar na praia pela manhã.
Esta última opção era exatamente o que ela estava fazendo naquele momento, quando cruzara com mais um homem qualquer na calçada. Relutante, ela notou que ele olhara para suas partes íntimas, como se tentasse avaliar a aparência destas, por baixo da apertada calça legging. Mas foi quando ele levantou o rosto, um segundo depois, que ela notou algo familiar nele. Assim que passou por ele, Beatriz vira a cabeça e nota que ele também o fez, e estava olhando para ela como se tentasse lembrar quem ela era.
_Oi!
_Oi. Eu... eu te conheço de algum lugar?
_Eu não saberia dizer moça, minha memória sempre foi péssima para essas coisas. Mas acho que eu me lembraria de você - diz Marcos, com um sorriso maroto no rosto.
_Espera aí... Eu conheço você sim, você cursou Direito comigo na Federal! É você mesmo! Mário... Marcos não é isso?
_Opa! É esse mesmo o meu nome. É verdade, você parece ser bem familiar. Qual o seu nome mesmo?
_É Beatriz, Marcos! Você continua a mesma figura hein?!
_Beatriz?! Beatriz?! Nossa, você está muito mudada!
_Bom, já passou muito tempo, afinal...
_É muito bom encontrar alguém da velha turma assim, de repente! Isso me trás muitas lembranças!
Beatriz concorda, e seu antigo colega de curso desatina a contar as lembranças da época do curso. Após alguns minutos conversando em pé, sob o sol forte da manhã, eles se sentam num quiosque da praia e tomam alguns drinques, enquanto lembram dos velhos tempos de faculdade.
_E você lembra da Anna? Aninha? Ela sempre emprestava minha jaqueta na aula, sempre que eu levava a tal jaqueta, ela pedia emprestado. Era tão frienta a garota!
Beatriz ri, e responde: _Como você é bobo Marcos, todo mundo sabia que a Aninha era louca por você, por isso ela vivia tentando chamar sua atenção de alguma forma... Até hoje falo com ela, e tenho algumas das pessoas lá da sala, adicionados na internet!
_Sério que você ainda tem contato com alguém da turma?
_Pouco mas tenho sim. Você perdeu contato com todo mundo?
_Sim, depois que nos formamos nunca mais vi o pessoal... Saudade daquela turma, nós fazíamos muita farra naquela época, toda semana era uma festa, bons tempos!
_Toda semana?
_Sim, toda sexta galera saia para tomar chopp, não lembra? Sabe o que eu queria mesmo fazer? Queria rever toda aquela turma, ver como todo mundo se saiu, o que tem feito de suas vidas, tenho muita saudade daquela época!
_Você tá propondo o quê, uma aula da saudade é?
Marcos olha para ela sorrindo.

Trinta anos atrás

Mariana está no corredor do Bloco C, o prédio do curso de Direito naquela faculdade. Ela se debruça sobre o parapeito do 2º andar, olhando para o campus à sua frente. Então ela nota que alguém estava do seu lado, ao olhar vê Rodrigo, ele estava imitando a posição de Mariana, esperando que - em meio a seus devaneios - ela notasse que ele estava ali do seu lado.
_Buh. - diz Rodrigo, sorrindo.
_Buh para você, Rodrigo!
Mariana gosta de sua companhia. Rodrigo e sua mistura de jeito bobo porém sério, se tornara uma companhia bastante agradável de se ter por perto. Ele sempre sabia como fazê-la rir das coisas mais simples e inesperadas, e ela gostava disso. Na verdade, nos últimos meses Mariana estava gostando cada vez mais disso.
_Que cara de pastel é essa Mari?
_Ah, Dinho. Essa aula é um saco, você sabe...
_Deixa disso Mari, vamos até a cantina que eu ti pago um bolo de coca-cola!
_Não vai assistir essa aula?
_Essa aula é um saco, você sabe...
Mariana sorria. Não tanto das gracinhas que Rodrigo fazia, mas porque sabia que só ela achava graça nelas.
Enquanto passavam em frente à sala de aula, caminhando até as escadas, passam por um amigo que diz:
_E aí galera, vocês vão para o churrasco final de semana?
_Não sei ainda, eu acho que não. - diz Mariana.
_Quê isso Mari, vamos! - responde Rodrigo.
_Então o casal vinte aí não vai é? - diz o amigo dos dois.
Mariana fica corada, e sem-graça diz:
_Deixa de besteira, Rafa!

Posted by Odival Quaresma Neto 18:10 5 comentários  



O Trem


Capítulo I
Sua face não é diferente das milhares de outras faces que viajaram em mim. Ele não é especial, embora se considere, como os outros milhares antes dele. Ele olha para mim... Não! Ele olha através de mim, e seu olhar denota toda a tristeza da paixão inocente e pura que ele nutre por sua própria vida, suas lembranças, seu caminho.
Ele dá um passo sobre o degrau da entrada de um de meus vagões - e pára. Segurando um suporte (outrora) dourado, na porta, ele olha para o horizonte e finalmente entra. Ele se senta ao lado da janela, na penúltima fileira de cadeiras do vagão.
Deixamos o mundo. O vento soprava, frio e feroz. A paisagem também passava, sempre passava.
É cruél, a vida. Qualquer coisa capaz de deixar um vazio tão profundo no coração de uma pessoa, é uma coisa muito cruél. Percorro os trilhos à toda velocidade, e me deixo adentrar a fina camada de neblina e sereno que jaz à nossa frente: as gotículas de rocio na janela são meu tributo ao meu único passageiro, assim ele - espero - saberá que compartilho de sua melancolia.
Não sei se ele observa os borrões de luz que - estivesse eu mais lento - seriam a paisagem, ou se apenas fita o próprio reflexo no vidro de minha janela, tão antiga quanto a lembrança. Me deixa fluir com os pensamentos! Como eu fluo pelos trilhos, voando no mais profundo crevasse da memória, donde vejo cairem - lá de cima - a poeira das velhas e enfraquecidas lembranças.
A luz amarela é quente, e eu (ou ele) levantamos os nossos pequenos e rechonchudos braços em sua direção. O calor que dela irradia, me deixa em júbilo e, mesmo com minha capacidade de reflexão quase nula, sinto (minha única e mais efetiva forma de abstração) toda a minha vida e suas infinitas possibilidades explodirem diante de mim, tão rápidamente quanto os raios de luz, que incidem sobre mim. Me (se) deixo permear pela sensação de gozo que a ansiedade de começar a viver apresenta. E então minha mãe (oh, mãe) termina de trocar a (nossa?) fralda...
É um sistema, a vida. Nasce cheio d'energia, explodindo no vácuo quântico donde antes existia o esquecimento, daí pra frente se expande e toda aquela ousada excitação do começo vai se tornando mais e mais difusa, até o fim, num mar de nada, num coletivo de singularidade.
Ele sente o vento frio a balançar seu cabelo, e o gosto de manhã fria e cinzenta nos olhos, e minha janela continua fechada, como sempre. Não é do eterno infinitesimal lá fora que vêm essas sensações, esta é a brisa da mente, sombra de sonho que flutua como gás gelado nas profundezas da lembrança.
Uma bela manhã para ele, que olha para o jardim. Ao fundo, vê-se um grande rio, um céu crepuscular e aquele tronco de árvore cortado. Um clima clerical toma conta de nós, e o jardim parece tão escuro, as poucas frestas de luz do pôr-do-sol parecem a chama de pequenas velas, perdidas na escuridão. E na noite da infância, ele a conheceu, e o universo se expadiu, fenômeno que se repetiria mais algumas vezes, mas poucas delas com a mesma intensidade de agora. Sinto saudade de mim...
As vezes eu me pergunto se os trilhos que percorro existem mesmo. Me pergunto se existe algo além destes trilhos, e sinto medo, medo de que algum dia eu admita essa (então) verdade, e deixe de existir também. Minha existência é insólita, mas me agarro nos pequenos gestos dos passageiros que transporto, para continuar a ser.
Um dia ela perguntou se ele tinha namorada, e a possibilidade que ela implicou deixou a minha bochecha corada. Ele estava feliz, mas a felicidade é senão uma faísca no escuro, débil, efêmera e impotente. E, certo dia, enquanto descíamos a rua até a casa dela, encontro apenas sua tia, que me informa que ela foi embora, para sempre.
Achei que ele estava lagrimando, mas olhei para o caminho à minha frente, e começou a chover.

Posted by Odival Quaresma Neto 20:47 1 comentários  



Sobre pastores e rebanhos



Na história da Humanidade, sempre houve líderes e seguidores. No entanto, nenhum seguidor jamais seguiu mais que uma sombra e uma idéia, seus líderes sempre estiveram sozinhos.

O maior problema do seguidor é o método por eles usado para seguir os passos de seu líder, aliás, o maior erro é justamente quererem seguir os passos de seus líderes. Pois o caminho destes homens não é determinado por uma rota palpável, uma trilha, e sim por seus princípios.

Infelizmente existe um problema na relação entre o objeto e o agente que analisa este objeto, um problema hermêutico. Ao analisar o objeto em questão, quer seja, os princípios de seu líder, os seguidores são incapazes de compreendê-lo da mesma forma que seu mestre os compreende. Este problema decorre da própria natureza perceptiva humana e é incorrigível.

No entanto, pode-se, até certo ponto, se aproximar da compreensão alheia de um mesmo objeto, esta é precisamente a função da linguagem. Esta aproximação é facilmente verificável no cotidiano ao vermos duas pessoas se entendendo.

Historicamente os seguidores não se dão ao trabalho de analisar os princípios daquele que seguem, eles simplesmente deduziram que seguir os passos desta pessoa era o suficiente para que se tornassem iguais a seu mestre. Viver pelo princípio, ao invés de viver o princípio.

Em Gotham City, existe uma dupla de heróis: Batman e seu pupilo, Robin. Este sidekick, ou parceiro, faz tudo o que seu benfeitor faz: ele luta contra criminosos, tem lá seus dotes de detetive, et cetera. Todavia, ele nunca será o Batman, pelo contrário, ele sempre será um seguidor, este é o seu papel. Logo, o problema fundamental da condição de seguidor é ela própria, enquanto seguidor, seguidor. Robin nunca se igualará ao Batman, pois sua condição de existência é ser seu parceiro. Se isso mudasse ele seria o líder e quaisquer discussões sobre pastores e rebanhos perderia o sentido.

Algumas doutrinas pecam exatamente por isso: ao invés de doutrinarem o seguidor a alcançar o mesmo patamar de seu mestre, cria condições para que este seja sempre um mero seguidor. O que não é um problema tão grande enquanto o mestre estiver vivo, mas uma vez que morre, seus seguidores ficam perdidos e mesmo a mais pacífica das doutrinas, sem liderança, pode se transmutar numa violenta torrente ideológica.

O nazareno Yeshua (ישוע) passou, ao que tudo indica, pelo mesmo dilema: Sua inabilidade em conduzir a própria doutrina formou seguidores, que não tinham nenhuma condição de se tornarem “mestres”. O que é um seguidor de Yeshua? Um seguidor da doutrina cristã é aquele que, através de uma postura ideológico-religiosa tentam encontrar o Reino de Deus. E o que é Yeshua? É aquele que já encontrou este lugar, este estado de espírito. Ou seja: ele formou pessoas que sempre procurariam o caminho para o Reino dos Céus, sem, no entanto, conseguirem encontrá-lo.

As palavras à ele atribuída nos evangelhos canônicos, sugerem que sua intenção era diametralmente oposta: o nazareno queria que as pessoas chegassem ao Reino dos Céus, ao invés de apenas procurarem por ele. Todavia, seus apóstolos (e todos os cristãos que os sucederam) tinham um agudo instinto de rebanho e como tal, jamais iriam querer tomar as rédeas e “ser” seu mestre, se contentavam em apenas imitar suas atitudes, seguir suas pegadas.

Isso fica especialmente visível quando, a partir dos relatos dos evangelhos escolhidos por Atanásio de Alexandria para integrarem o Novo Testamento, notamos que Messias cristão era um revolucionário, que não se importava em condenar milênios de tradição hebraica e ignorar os paradigmas desta sociedade, que perduraram durante tanto tempo. Mas seus seguidores conservam pouco ou nada destas características, em especial os cristãos contemporâneos, que, ao contrário do que vimos seu mestre fazer, lutam (o que não deixa de ser uma conduta anti-cristã) vigorosamente para manterem suas instituições religiosas, suas crenças, paradigmas e tradições.

Enquanto os líderes seguem o curso de suas vidas, vivendo seus princípios, os seguidores empacam, discutindo axiomas desenvolvidos por uma tradição sobre como viver pelos princípios de seus líderes.

Um dia Batman morrerá, será que Robin vai levar a cabo a vingança de seu benfeitor contra os criminosos, vingança essa que nada mais era do que uma forma de compensar a morte dos pais de Bruce Wayne nas mãos de um... criminoso? Será esta a melhor forma de Robin viver sua vida plenamente? Levar adiante uma vingança que nunca foi sua?
Será que algum dia as ovelhas viverão suas vidas, e não aquilo que acham ser a vida de seus pastores? Será que, algum dia, veremos cristãos revolucionando a própria teologia? Quebrando com velhos paradigmas e tradições construídos pelos seguidores de Cristo, ao longo de cerca de 2009 anos de história? Será que algum dia veremos cristãos morrendo por seus próprios pecados, e aceitarem calados a opressão que lhes é impugnada, usando o silêncio e a indiferença como armas contra aqueles que lhes opõem, como seu mestre Jesus fez?

Posted by Odival Quaresma Neto 12:35 1 comentários  



A Cor Do Pêssego

Ela tinha saudades daquela época simples em que o Sol parecia ter uma agradável tonalidade cor de pêssego em sua luminosidade. Época em que o dia durava uma eternidade e você podia sentir o tempo fluir através de si, lentamente. Deste tempo, só restou uma velha foto, uma única foto.
Ainda hoje ela lembra da sensação de rubor em suas bochechas, do calor de sua pequena mão, envolta pelas mãos daquele menino de cabelos escuros. Ela sentia a atmosfera fria ao seu redor, no entanto, o Sol parecia quente, ou teria sido ela?

E ao lembrar, eis que ela se flagra com o coração palpitando mais rápido, sua respiração está ofegante e o ar frio entra em seus pulmões como se os estivesse queimando. O mundo pesa em seu peito, e seu corpo, sem saber como reagir, lacrimeja. Definitivamente, milhões de anos de evolução do corpo humano não o prepararam para lidar com sentimentos agudos como o amor e a tristeza.

É esta última que invade seus sentidos, e a lembrança do cheiro de mato molhado e das pequenas aventuras de sua infância ia minguando. Uma lágrima atinge a foto em suas mãos. O pequeno garoto de cabelos escuros crescera ao seu lado. Eles se descobriram juntos, choraram juntos, amaram juntos.

E agora, enquanto faz a maior descoberta de sua vida, ela está sozinha. Seus olhos cobertos de lágrimas mal conseguem focar o monitor do notebook à sua frente. Quando conseguem, ela pode ver mais uma vez o e-mail que a fizera se recolher, por alguns minutos, em sua infância.

Posted by Odival Quaresma Neto 21:07 1 comentários  


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